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texto que não dá para ler sobre (não-)livro que não é para ler:

sobre_rangimento

Primeiro, dizer:

Sobre o tema, expresso de forma muito directa nos “4000 imigrantes” — onde as letras “nte” estão rasuradas, apagadas, riscadas —, dizer apenas que só alguém muito atento às questões das migrações podia produzir um trabalho que, sem premeditação, viria a circular a par com os acontecimentos das últimas semanas.

Depois, perguntar:

Livro de Artista? Livro experimental? Livro de poesia visual? Livro de poesia interactiva? Ou como diz a autora: “quase-não-livro-objecto de poesia visual interactivo”? Sobretudo: um artefacto que, como objecto experimental que é, coloca em questão as fronteiras de género e as caixas balizadas em que se tende a querer colocar os trabalhos poéticos.

rangimento é: 10 páginas encadernadas em espiral com mais 3 destacáveis.

Mas tudo é debatível:

10 páginas”

Questiono se:

Estas páginas são páginas? (É que o espaço da página é usado como um espaço que extrapola a página: não se respeita o protocolo de escrita nem as regras de leitura. Os significantes são trabalhados no espaço da página, os significados são trabalhados ao longo das páginas, em mutação permanente promovida pelo manuseamento do livro. Cada página é uma página e, por cada página ser transparente, cada página é sempre todas as páginas; o mesmo é dizer que: todas as páginas são uma página.)

[Interacção-Instanciação.]

10 páginas encadernadas”

Pergunto se:

É possível falar de encadernação? Em que sentido? A espiral metálica que suporta as páginas e as mantém numa certa ordem dá-lhe mesmo uma ordem? (É que consigo ver todas as páginas mesmo com o livro aberto na primeira página, ainda que os significantes se acumulem em sobreposições várias.)

[Transparência/Interferência.]

10 páginas encadernadas em espiral”

Diria que:

Mais importante do que a espiral metálica da extremidade do livro é a espiral vertiginosa da significação que se avoluma em perspectiva multiforme através da legibilidade e ilegibilidade das páginas a partir de determinado ponto de visualização. E o manuseio não ajuda:

Estou na primeira página; manuseio para ler melhor — folheio o livro; acedo a novas camadas — perco as anteriores; olho só para uma página — são resquícios de sentido; sobreponho três páginas — a parte fala pelo todo, mas gagueja e arrasta a fala; volto ao todo — as páginas deram a volta na espiral e eu já não sei qual era a primeira ou a última página. Perco-me no que nunca foi.

[Iteratividade. Extranoemática.]

10 páginas encadernadas em espiral com mais 3 destacáveis.”

Parece-me que:

Talvez a parte mais interessante deste livro sejam os destacáveis, pequenas folhas que se intrometem nos acetatos pela mão do/a leitor(a). Nova camada de sentido em ruptura com o que já lá estava, se alguma vez lá esteve. Ou: Velha camada de sentido em abono do que não lá estava, ainda que sempre lá tenha estado. As três folhas avulso (2 cartões e 1 acetato) distribuídas pela autora são bons, mas melhor é a infinita possibilidade de o/a leitor(a) trazer tudo o que quiser e a sua imaginação lhe permitir para o meio destas páginas.

[Apropriação. Obra aberta.]

Sobre este livro ou não-livro apenas é certo que: raaaangeeeeeeee!

“kunamis fresquinhos” a.k.a. 2 apontamentos sobre as nossas andanças

no a glimpse of o desafio era mais ou menos isto: fazer algo sobre corpos “happy, and orgasmic, fond of everything erotic, eager to become ecstatic”, sexo, pornografia; usar palavras de partida que estivessem contidas nos textos abaixo.

à Liliana saiu-lhe isto, a partir das palavras que explicavam o desafio: positive pornography. Ela agradece aos softwares Natural Reader e Soundplant. Sem eles nada teria sido possível.

E como há que aproveitar bem quando dão trela à poesia-que-pelo-menos-tenta-experimentar, a manobra de Heimlich deu uma perninha na Revista Laboratorio (Universidade Diego Portales, Chile).

. ] quinquilharia [ > lança-se na clandestinidade

kinky

Na . ] quinquilharia [ >  a pica é  “autora de 12 livros”, o medo é “fornecedor de produtos de escritório” e o “caos é não é sim é não é é”. Não é todos os dias que vemos a linguagem fazer um base-jump destes. Que me caia já qualquer coisa na cabeça se eu estou a mentir. Vocês vão querer ter este “bicho” aí em casa para folhear lascivamente sempre que vos apetecer.

Desde a capa até aos Tortos de autor, a . ] quinquilharia [ > (kinky para os amigos) desafia as práticas instituídas na poesia, na produção de poesia e na sua publicação e legaliza, expõe outras práticas que normalmente “não dão tanto jeito”  a quem costuma andar nestas vidas poéticas. (en)Vejamos: no início do livro é explicitado o método e estratégias (Googlism) utilizadas para criar o seu conteúdo (não, o Bruno não tem medo que lhe roubem as ideias e deixa o repto a quem quiser ‘usar.se’ do seu trabalho);  o livro tem uma licença CC, CULTURA LIVRE, Compartilha igual; é deliberadamente publicado no projeto Candonga e na sua clandestinidade.

 A primeira página pergunta-nos “Qual o sentido de fazer alguma coisa se não for para alterar a ordem e as ordens?”. As outras mostram-nos como isso é renovador.

Se quiseres arranjamos-te isso no mercado negro por 4 euros. Diz coisas.