Category Archives: poesia experimental

FESTIVAL SILÊNCIO 2016

reah_vista-geral
Vista geral de parte da instalação. Foto de Sandra Guerreiro Dias.

re-ah: a leitura de reinvenção ou a releitura da invenção
instalação poética transmedial por Bruno Ministro e Liliana Vasques
no âmbito do ciclo Ana Hatherly: Anagrama da Escrita
[30 junho a 22 julho @ Galeria da Boavista]

texto que não dá para ler sobre (não-)livro que não é para ler:

sobre_rangimento

Primeiro, dizer:

Sobre o tema, expresso de forma muito directa nos “4000 imigrantes” — onde as letras “nte” estão rasuradas, apagadas, riscadas —, dizer apenas que só alguém muito atento às questões das migrações podia produzir um trabalho que, sem premeditação, viria a circular a par com os acontecimentos das últimas semanas.

Depois, perguntar:

Livro de Artista? Livro experimental? Livro de poesia visual? Livro de poesia interactiva? Ou como diz a autora: “quase-não-livro-objecto de poesia visual interactivo”? Sobretudo: um artefacto que, como objecto experimental que é, coloca em questão as fronteiras de género e as caixas balizadas em que se tende a querer colocar os trabalhos poéticos.

rangimento é: 10 páginas encadernadas em espiral com mais 3 destacáveis.

Mas tudo é debatível:

10 páginas”

Questiono se:

Estas páginas são páginas? (É que o espaço da página é usado como um espaço que extrapola a página: não se respeita o protocolo de escrita nem as regras de leitura. Os significantes são trabalhados no espaço da página, os significados são trabalhados ao longo das páginas, em mutação permanente promovida pelo manuseamento do livro. Cada página é uma página e, por cada página ser transparente, cada página é sempre todas as páginas; o mesmo é dizer que: todas as páginas são uma página.)

[Interacção-Instanciação.]

10 páginas encadernadas”

Pergunto se:

É possível falar de encadernação? Em que sentido? A espiral metálica que suporta as páginas e as mantém numa certa ordem dá-lhe mesmo uma ordem? (É que consigo ver todas as páginas mesmo com o livro aberto na primeira página, ainda que os significantes se acumulem em sobreposições várias.)

[Transparência/Interferência.]

10 páginas encadernadas em espiral”

Diria que:

Mais importante do que a espiral metálica da extremidade do livro é a espiral vertiginosa da significação que se avoluma em perspectiva multiforme através da legibilidade e ilegibilidade das páginas a partir de determinado ponto de visualização. E o manuseio não ajuda:

Estou na primeira página; manuseio para ler melhor — folheio o livro; acedo a novas camadas — perco as anteriores; olho só para uma página — são resquícios de sentido; sobreponho três páginas — a parte fala pelo todo, mas gagueja e arrasta a fala; volto ao todo — as páginas deram a volta na espiral e eu já não sei qual era a primeira ou a última página. Perco-me no que nunca foi.

[Iteratividade. Extranoemática.]

10 páginas encadernadas em espiral com mais 3 destacáveis.”

Parece-me que:

Talvez a parte mais interessante deste livro sejam os destacáveis, pequenas folhas que se intrometem nos acetatos pela mão do/a leitor(a). Nova camada de sentido em ruptura com o que já lá estava, se alguma vez lá esteve. Ou: Velha camada de sentido em abono do que não lá estava, ainda que sempre lá tenha estado. As três folhas avulso (2 cartões e 1 acetato) distribuídas pela autora são bons, mas melhor é a infinita possibilidade de o/a leitor(a) trazer tudo o que quiser e a sua imaginação lhe permitir para o meio destas páginas.

[Apropriação. Obra aberta.]

Sobre este livro ou não-livro apenas é certo que: raaaangeeeeeeee!

deu caldeirada deu

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no dia mundial da árvore internacional contra a discriminação racial internacional das florestas mundial da poesia estivemos com Mário Lisboa Duarte, Nuno Miguel Neves e Zé Eduardo a fazer uma bela caldeirada de poesia eish!perimental no espaço da Mercearia de Arte e Galeria Ícone. vamos, entretanto, meter uns vídeos no ciberespaço para documentar os variados pEISH!s apresentados. enquanto não, preparámos uma coleçãozinha de postais (com o trabalho de cada caldeireir@) que podem adquirir na candonga por 2 eurinhos (incluindo portes de envio). e se um dia destes passar por vocês um urso numa carrinha branca a oferecer rabuçados…entram?

Mostra candongueira na Galeria LAR em Lagos

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O Candonga vai à praia. Dá início à sua época balnear a 26 de junho e fica por lá até 26 de julho. Agora que já fizemos esta piada tonta, podemos ir pisar os lugares comuns e dizer que o Algarve é muito mais do que praia. Desde 1995, o Laboratório de Actividades Criativas tem vindo a fazer um trabalho notável na disseminação de objectos culturais na cidade de Lagos. É, por isso, com enorme felicidade que expomos o nosso trabalho na Galeria LAR.

Mais info no blogue da associação.

GALERIA LAR
Rua Professor Luís Azevedo, nº 37
Lagos

De 5ª a sábado, das 18h às 22h

Manobra: a mão na dobra

Na série de poemas visuais Manobra de Heimlich a Liliana mostra que tem algo a dizer (cf. poema “eu tenho algo para dizer”) — e não só esse algo precisa de sair cá para fora (ser cuspido mesmo, pela acção de compressão do diafragma) como é significante na forma como o faz.

E, para falar sobre a forma, é melhor abrir aqui um novo parágrafo, porque também eu tenho ainda algumas coisas a dizer. Primeiro, há a forma que os poemas tomam no espaço gráfico da página: são manobras verbais hibridizadas com formas visuais. Depois, e não menos importante, há a forma como os poemas se materializam fisicamente: não ocupam um livro (que daqui não se deduza que eu sou contra os livros, longe disso), partem para outro contexto — para já, e até final do mês de Fevereiro, estão expostos na Fábrica do Braço de Prata. (É ir lá, é ir lá!) Não faz sentido que estes poemas encontrem suporte num livro em papel ou em meio electrónico? Faz. Aliás, eles até estão aqui, on-line portanto, e quem sabe se daqui a uns tempos não apetecerá à autora estampá-los no papel. A mim, pessoalmente, parece-me é que o facto de a Liliana ter partido para uma exposição desta sua série de poesia tem implicações particulares, marca uma posição — a poesia não é só para ser lida, é também para ser vista e para ser ouvida e apalpada (cf. poema “Apalpa-me”).

Se quisermos ir ainda um pouco mais longe (eu quero sempre, por isso já abri um novo parágrafo), o trabalho que a Liliana nos apresenta é também radical neste aspecto: no campo da sua poesia (que é verbal e é também já pictórico) apropria formas e discursos de um outro campo, também ele já híbrido por si, que é o da banda desenhada. No uso cruzado que é feito destes dois campos artísticos, a Liliana desestabiliza as convenções tanto da poesia como da BD. Coloca-se, por isso, numa no man’s land (ou no woman’s land), muito provavelmente incapaz de agradar a amantes de uma certa poesia por aí enraizada e também de escasso interesse para os mais ortodoxos amantes da banda desenhada. O que vale é que a sua poesia não é feita para agradar a ninguém. De outra forma, não andaria na Candonga (um bocadinho ao lado, mas, ainda assim, com algumas relações com este tópico cf. poema “Onde me pões”).

Pegando no que vinha a dizer (e ainda assim abrindo um novo parágrafo), quero ainda chamar a atenção para a insubmissão às ordens sociais dominantes dos poemas desta moça (não sei é possível que a radicalidade da forma surja indissociada da radicalidade do conteúdo, mas passemos à frente nesta discussão). Na apropriação que vários dos poemas fazem de discursos reais, o poema aparece como uma caixa de ressonância (algumas apropriações mais parecem ficção mas infelizmente não o são, cf. poema “Um ju”; outros são tão reais que podem muito bem ser o nosso vizinho do lado a falar… pensando bem o anterior exemplo também se aplica aqui, para nosso grande mal). Boa parte do trabalho poético desta série surge, portanto, da manobra de descontextualização e recontextualização que é feita pela autora — “Contexto, miúda” (para ver esta citação em contexto cf. poema “The same text”). Este movimento, ao reproduzir práticas e discursos, actua de forma a expor convenções sociais e ideológicas, questionando-as e confrontando-as no espaço político da língua (cf. poema “A língua”).

Por outro lado, esta estratégia destrói por completo o conceito de autoria romântica e faz esse fetiche autoral rastejar na lama, só por gozo — “se estás à procura de um conceito de amor ou ódio” (cf. poema “se estás à procura”), pá, vai procurando e acabarás por encontrar algo muito mais interessante do que isso.

Cavaco procura amor e ódio nos poemas da Liliana

. ] quinquilharia [ > lança-se na clandestinidade

kinky

Na . ] quinquilharia [ >  a pica é  “autora de 12 livros”, o medo é “fornecedor de produtos de escritório” e o “caos é não é sim é não é é”. Não é todos os dias que vemos a linguagem fazer um base-jump destes. Que me caia já qualquer coisa na cabeça se eu estou a mentir. Vocês vão querer ter este “bicho” aí em casa para folhear lascivamente sempre que vos apetecer.

Desde a capa até aos Tortos de autor, a . ] quinquilharia [ > (kinky para os amigos) desafia as práticas instituídas na poesia, na produção de poesia e na sua publicação e legaliza, expõe outras práticas que normalmente “não dão tanto jeito”  a quem costuma andar nestas vidas poéticas. (en)Vejamos: no início do livro é explicitado o método e estratégias (Googlism) utilizadas para criar o seu conteúdo (não, o Bruno não tem medo que lhe roubem as ideias e deixa o repto a quem quiser ‘usar.se’ do seu trabalho);  o livro tem uma licença CC, CULTURA LIVRE, Compartilha igual; é deliberadamente publicado no projeto Candonga e na sua clandestinidade.

 A primeira página pergunta-nos “Qual o sentido de fazer alguma coisa se não for para alterar a ordem e as ordens?”. As outras mostram-nos como isso é renovador.

Se quiseres arranjamos-te isso no mercado negro por 4 euros. Diz coisas.